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Relato do que aconteceu ao Giorgio Renan:
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O
menor que atirou em meu filho estava sob acompanhamento do Conselho Tutelar já
a um longo tempo, por
ter apresentado problemas comportamentais em várias escolas onde estudou, tendo em sua
pasta do Conselho laudos de psiquiatras atestando ser ele um sociopata.
O Conselho Tutelar colocou esse menor no Colégio Estadual Julia Wanderley - Curitiba, em 2001. Meu filho em 2001 estava na quarta série à tarde e o menor na quinta pela manhã, então naquele ano eles não tiveram contato. No decorrer do ano de 2001, esse menor foi o causador de diversos problemas na escola, sendo que o Conselho dos Professores resolveu que ele não deveria ser matriculado em 2002, mas por motivos desconhecidos, a então Diretora da escola não fez a comunicação ao Conselho Tutelar.
Em
2002, uma nova Diretora assumiu o cargo e como já conhecia o histórico do
menor, vendo que ele ainda estava na escola,
convocou um representante do
Conselho Tutelar e o responsável pelo menor para solicitar que o mesmo fosse
retirado por representar, no seu entender, um risco para os outros alunos. Isso
ocorreu em fevereiro, no início do ano letivo. As aulas começaram e o caso
permaneceu em solução até março, quando a Diretora sugeriu outras escolas e
empenhou-se para que o menino fosse retirado do convívio com os alunos.
Finalmente, o Conselho Tutelar decidiu pela permanência, obrigando a escola a
aceitá-lo.
Nesse
ano meu filho que sempre foi um excelente aluno, tendo sido inclusive eleito o
melhor aluno da escola em 2001, passou para a quinta série. Ele tinha 10 anos
de idade. Com a decisão do Conselho, o menino assistido, então com 14 anos,
passou a ter aulas na mesma sala. Isso o colocou em convívio diário com crianças
bem mais novas, na faixa etária de 10 anos, uma vez que ele era repetente
contumaz.
O
menino assistido fez amizade com meu filho, passando a freqüentar minha casa a
partir de abril. A princípio estranhei, pois ele era bem mais alto e parecia
bem mais velho, mas ele afirmou ter apenas 12 anos. Em minha casa estavam sempre
presentes minha empregada e meu outro filho, que na época estava com 19 anos.
Em
abril aconteceram alguns problemas com esse menor na escola, pois ele tinha um
histórico de fazer amizade com crianças menores e depois quando elas faziam
amizade com ele, o mesmo passava a agredi-las de várias
formas. Ele costumava fazer desenhos em forma de história em quadrinhos, com
cenas de morte, nas quais os personagens eram sempre colegas e professores.
Em uma prova, usando o verso das páginas, ele desenhou a Diretora e a
Coordenadora da escola sendo mortas e tendo o corpo marcado para corte, como se
vê em imagens figuradas de cortes de carne de gado. A volta dos quadrinhos
continha várias imagens de uma espingarda disparando, em vez de balas, órgãos
sexuais masculinos, arrematado por um deles, enorme.
Chamada
pela professora que ficou alarmada pelo fato, a Diretora constatou que ele não
assinara a prova e solicitou que ele o fizesse. Em seguida, providenciou xerox
da lista de chamada do dia e de todas as provas. Com isso em mãos, convocou o
Conselho Tutelar e o pai do menino. Durante a reunião, a Diretora tomou
conhecimento que a espingarda era real e estava na casa do menor, quando então
ela o aconselhou a não deixar tal arma em casa. O pai, porém, argumentou que a
arma estava bem escondida. Foram relatados os casos de agressões e exibidas as
cópias em xerox feitas e, novamente, o Conselho Tutelar achou por bem manter o
menino assistido na escola.
Em 27 de maio de 2002, meu filho me telefonou no
trabalho e me informou que havia sido convidado para ir brincar na casa do
menor, que morava em um bairro próximo ao meu, pedindo permissão para ir.
Perguntei como ele iria até lá, ele me disse que o pai do menino viria
buscá-lo. Eu então falei com a minha empregada que ele só poderia ir se o pai
do menino realmente viesse buscá-lo e o trouxesse de volta.
Por volta das 13:30, minha empregada me
ligou dizendo que o pai do menor tinha ido buscar meu filho e ela recomendara
que ele o trouxesse de volta às 16 horas.
Perto
das 16 horas um bombeiro de nome Assis, ligou-me em meu trabalho e, sem nenhum
preâmbulo, me disse: Você é mãe do Giorgio Renan? Estou ligando para avisar
que ele morreu! Chocante! De início
achei tratar-se de um trote, uma brincadeira de mau gosto, face à crueza da
informação. Minha gerente, vendo o quanto eu estava transtornada e também não
querendo acreditar na notícia, tirou o telefone de minha mão e conversou com o
bombeiro. Ele confirmou que era verdade, que Giorgio tinha recebido um tiro e
morrido. A notícia correu a empresa instantaneamente e o trabalho parou.
Pessoas se prontificaram a me acompanhar ao local e a avisar minha família.
Chegamos
à casa do menor, onde havia uma grande confusão de veículos policiais, IML e
representantes da imprensa, além de vários curiosos. Amigos e familiares
impediram que eu saísse do carro para não ver a cena e ficar em estado ainda
pior do que já estava. O abalo foi tal que tiveram de me levar a um hospital
para ser socorrida. Pessoas da minha família acompanharam todos os
procedimentos, inclusive a liberação do corpo de meu filho junto ao IML e
preparativos para o funeral.
Por
volta das 17:30 horas uma pessoa ligada à doação de órgãos me ligou e pediu
doação de órgãos, eu disse que ela poderia vir que eu assinaria a
autorização. As 18:00 horas eu assinei a autorização. Seis meses depois eu
soube que a doação não foi feita, pois não havia nenhuma gota de sangue no
corpo do meu filho para fazer os exames necessários.
O
tiro que matou Giorgio foi disparado à curta distância no pescoço (quase
decepado) cortando a veia principal. O autor do disparo, ligou friamente para o
pai, que os havia deixado sozinhos, para a policia e para os bombeiros (eu ouvi
a gravação dos bombeiros, uma narrativa fria, sem nenhuma emoção).
Durante
o velório, a Diretora da escola se aproximou de mim para me confortar e foi
nesta hora que ela sentou comigo e disse: eu tenho que te contar algo e despejou
em cima de mim toda esta história do menor, o que havia ocorrido na escola, me
dizendo que sentia muito e que estaria a minha disposição para testemunhar
sobre isso tudo, e para tudo o que eu precisasse.
Durante o
inquérito, foi comprovado que o autor da morte tinha plena e total habilidade
no manuseio da arma, inclusive sabendo montá-la e desmontá-la. Sabia também
onde a arma ficava, ao alcance de qualquer pessoa. Também foi comprovado por
laudo médico espancamento imediatamente anterior ao tiro fatal que causou
hematomas e três costelas quebradas.
O
causador da tragédia, por ser menor de idade, ficou 3 dias detidos na Delegacia
do Adolescente e foi liberado. O caso ficou sem julgamento durante um ano e o
menor foi colocado em outra escola. Depois de um ano, sua condenação foi
cumprir uma medida sócio-educativa de 6 meses, em liberdade. Tendo completado
18 anos em agosto de 2006, todos esses fatos foram apagados de sua ficha, como
manda a lei.
Elizabeth Metynoski – mãe do Giorgio Renan
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